| A minha ilusão |

— por Valéria Vicente,  Agosto, 2012 —

 

Existem muitas possibilidades de se comentar uma obra. Quando assisto a um espetáculo gosto de ficar pensando sobre o que a experiência de vê-lo está me fazendo pensar, o que tenho vontade de fazer, onde a dança mexe em mim. Agora tento trazer essa memória e conversar com ela.
Quando assisti Ilusionistas a primeira vez, sentada numa cadeira bem próxima ao banco onde a cena começa, senti várias vezes vontade de soltar a voz, bater os pés e mover o peito pra frente. A forma como uma postura dura e um texto sem sentido foram ganhando contornos lógicos através das alternâncias dinâmicas e da performance dos intérpretes já foi em si um convite à dança e ao desvendamento do que estava por vir. Impressionante como música faz sentido, parece mais fácil entender a estrutura da arte através da música… E a palavra! Como contamina tudo! Estava mesmo ouvindo isso?: Money talks, bullshit walks ? A ilusão começava a gerar questões…
O trabalho se seguiu prazerosamente parecendo reafirmar a ideia que cultivo de que a solidez das coisas é relativa e frágil. Mas não pude deixar de lidar com as lembranças que tenho de João Lima. Desde que o conheço, já um ótimo ator com bastante destreza física. Desde lá longe um artista que leva muito a sério a profissão e suas questões. Fiquei especialmente feliz quando soube que ele havia sido convidado por Peter Dietz para integrar um trabalho de dança contemporânea, pois imaginava o que o encontro de João com essa cena poderia proporcionar a dança de Recife. Nós estávamos bem distantes naquela época…
João e Vitor se deslocavam deixando rastros pelo espaço, construindo caminhos. Lembrei de “Noturno (2003)”* e pensei no quanto nos faltava ferramentas para desenvolver o que pretendíamos. Mas apesar da reiteração da organização espacial ser parte do desenvolvimento dramatúrgico nos dois trabalhos, Ilusionistas lembra quase nada aquele trabalho de 2003, que João dirigiu. Ele está diretamente relacionado com o outro, mais recente, seu solo “O Outro do Outro”**. Lá questões sobre representação já estavam colocadas. Lá também o jogo de transformação do corpo e do significado por pequenas alterações. Lá também a palavra usada de forma a evocar toda sua potencia imagética e simbólica.
Também na coreografia em seu sentido estrito há semelhanças que não são apenas a corporalidade do intérprete – até porque aqui são dois – mas me parece que há continuidade no procedimento de incorporar movimentos que atravessam o cotidiano sejam eles simples modos de acenar ou movimentos de danças específicas, que se esboçam e desfazem. Me parece que agora as possíveis narrativas são mais interrompidas, interpeladas, abandonadas, ao invés de construir sentidos ela confundem…
Já faz algum tempo que reconheci que dança não foi feita para ser vista uma única vez. Quem vive um processo de criação sabe quantas camadas de intenções, informação e descobertas cobrem cada gesto, movimento e cena. Fui de novo assistir os Ilusionistas, agora já sabendo que escreveria algumas palavras pra João. Dessa vez assisti do meio da plateia, sentindo as reações das pessoas e com a possibilidade de um olhar mais panorâmico.
Me dei conta que a luz da plateia fica acesa por muito tempo. Ótimo mecanismo para integrar-nos aos jogos propostos pela performance. Pude trocar olhares e sorrisos com amigos e desconhecidos e as cenas iniciais me pareceram mais cômicas somadas às reações das pessoas. A seriedade com que a cada momento as paredes, objetos e pessoas eram nomeados evocando sua materialidade e seus significados possíveis ganharam muita vida na performance pelas ações serem sintéticas, diretas e precisas. “Repetir repetir até ficar diferente” escreveu Manoel de Barros, mas aprendi com Clara Trigo que transformou essa frase em um dos seus métodos de trabalho. No ilusionistas o processo de mudanças de significados está apresentado como estrutura da composição, o processo é aberto. Ao contrario dos mágicos da infância, acontece a olhos nus e às vezes lentamente. Aqui a ilusão é produzida pelo palhaço que de tão honesto nos faz rir de nós fingindo que rimos dele.
A estrutura do trabalho parece reiterar por diferentes estratégias o mesmo tema: a transformação dos sentidos que atribuímos ao que vemos e vivemos se alterna com a transformação mesmo das coisas e situações operadas pela alteração de alguns elementos. Mas tudo está tão bem estudado que dá gosto ir desvendando cada organização espacial e corporal, intuindo o que já está lá e ainda não se dá a ver. Novas camadas são inseridas: a luz e seu poder transformador, ampliando o teatro como um lugar para deixar vagar a imaginação; a movimentação fragmentada, borrada, que não se deixa apalpar completamente; os sons que vem de toda a parte e evocam mais sentidos possíveis, os diferentes objetos cênicos. A opção de encenação nos coloca diante da materialidade da cena ativando aquele necessário distanciamento que nos obriga a transitar da fruição para a reflexão.
Mas não apenas isso… o que é? O que sinto? O que estou aprendendo… talvez que fazer operar a transformação dos significados é algo a ser aprendido, vasculhado, revirado… Talvez que por sermos gente, não importa saber se estamos ou não diante de uma representação, pois a memória do corpo faz tensionar o peito diante da agressão, mesmo que esta seja declaradamente ilusória.
Nesse exercício de imaginação, prazeiroso e necessário, vou vivendo essa dança desejando vê-la como uma possível metáfora da vida, e assim vou dando corpo a ilusão de que sempre é possível transformar, imaginar, e dessa forma refazer nosso mundo.
Valéria Vicente – Dançarina e coreógrafa. Professora do Departamento de Artes Cênicas da UFPB e coordenadora do Acervo Recordança.



OBRAS NA FACHADA, 2004.
EM TRÂNSITO, 2013.
URRA! 2015
DIA ZERO, 2012.