| Como atravessar um portal |

 — por Thiago Corrêa —

Entrar num teatro é como atravessar um portal. Tal como acontece quando vamos ao cinema, abrimos um livro ou apertamos a tecla play para iniciar um filme; nos enchemos da expectativa para romper com a realidade, com tudo aquilo que fica do lado de fora. Quando a peça Ilusionistas começa e a iluminação põe em destaque os atores João Lima e Vítor Roriz, nos colocamos num estado de abertura capaz de aceitar inverdades, fantasias, máscaras e regras que vão conduzir nossos pensamentos pelos próximos 55 minutos.

Numa espécie de prólogo do espetáculo, a dupla parece nos espelhar nesse desconforto inicial do público com o surgimento de um novo universo que se coloca em construção ali, naquele momento, no palco. O silêncio que envolve o olhar vazio e estático dos atores logo se rompe com um som monossilábico que escapole tímido da boca de João e provoca reação semelhante em Vítor. O diálogo onomatopeico que se inicia de forma receosa, típica do processo de aprendizagem e da descoberta, logo evolui para um dueto musical de percussão oral e corporal.
Mas quando tudo parece engrenar, a chegada do verbo instaura a dúvida novamente, descortinando o espaço teatral. Os ilusionistas quebram a dimensão ficcional do palco e nos fazem enxergar o teatro pela sua materialidade, através de referências diretas e repetitivas, evidenciando suas paredes, portas e cortinas, refletores, marcações de palco (linha) e plateia composta por pessoas e desconhecidos.
Mais uma vez, quando já nos sentimos dentro do jogo, ambientados no espaço teatral, a dupla propõe uma nova regra e termina por reabilitar o poder ficcional do palco, tornando-o um espaço de liberdade de representação, onde o chão pode virar teto e o teto se transforma em chão, onde a plateia pode ser chamada de cortina e a cortina ganha o nome da plateia. Com o elemento de criação reestabelecido, eles tratam de apresentar outras maneiras de explorá-las, o que é feito seja por meio da sequência de elementos nomeados (varanda-pessoa-chão numa representação de queda), pela entonação de uma mesma palavra (fora como oposição a dentro, ou indicação de expulsão) ou ordem de gestos (transformando um murro num puxão), o que concede diferentes sentidos ao mesmo signo.
Nesse ponto, quem acompanha o trabalho de João Lima, que assina a direção artística do espetáculo, encontrará pontos em comum com a sua peça anterior, O outro do outro (peça apresentada em 2010), que também discutia o papel ficcional do palco e a repetição como estratégia de se evidenciar a mudança de sentido a partir de detalhes sutis. Em Ilusionistas, porém, a linguagem oral não tem a mesma importância central de O outro do outro, ela cede lugar para a música e a dança nesse exercício de ressignificação e desconstrução do discurso teatral.
Essa mudança acontece de repente, a gramática passa a ser a do corpo ao invés do verbo. Com movimentos mecânicos ao som dos efeitos futuristas criados pelo músico Claudio N, os atores exploram as possibilidades da linguagem corporal como instrumento para ampliar os horizontes da nossa compreensão. O público, diante da proximidade com o discurso verbal, é novamente desafiado, posto em desconforto, órfão da palavra e ainda sob a perspectiva de elaborar explicações sobre o que se desenvolve no palco.

As possibilidades abertas pelo abstracionismo da dança e do esvaziamento das palavras são muitas. Há quem enxergue ali uma relação amorosa com suas alternâncias de carinho e agressões. Há quem veja viagens espaciais à lua e astronautas com seus capacetes. No entanto, o que os ilusionistas parecem colocar em jogo não é o sentido das suas ações, mas a nossa própria capacidade de imaginar, evidenciando nossas predisposições mentais, com suas paredes e portas, para encontrar uma explicação para tudo.



MORDER A LÍNGUA, 2014
OBRAS NA FACHADA, 2004.
NATUREZA MONSTRUOSA, 2011.
CASA GRANDE & SENZALA, 2001.