| João Lima quer saber quem somos nós |

— por Thiago Corrêa, Jornal do Commercio. Março, 2010. —

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Bastaria a presença de uma única pessoa na plateia para o ator João Lima apresentar a performance O outro do outro. Na noite da última sexta-feira, o ator encontrou mais que isso no Teatro Hermilo Borba Filho para poder estabelecer um jogo com o público. Desenvolvido através do programa Itaú Rumos Dança, o espetáculo procura questionar o sentido de identidade ao explorar possibilidades que uma palavra dita no palco pode despertar.
Com iluminação chapada, sem mudança em relação à hora em que o público tem acesso ao teatro, Lima surge no palco como ele mesmo, vestido feito qualquer jovem em sua idade e se apresenta. Diz seu nome, profissão, relata lembranças de infância, descreve características físicas e cita fatos que podem ajudar a desvendar quem ele é, despejando sentimentos, números de RG, CPF, passaporte, conta bancária e senha.
Nesse momento, quando a hiperrealidade já parece encaminhada, a performance toma outro rumo. A iluminação e o figurino são os mesmos, mas agora o ator assume o papel do seu pai,da mãe, da namorada, de amigos, conhecidos, de um funcionário do teatro, do cantor Caetano Veloso. Assim, o ator mostra que, no palco, ele pode ser o quiser quando pronuncia o verbo ser na primeira pessoa.
Aos poucos, as palavras se aliam à expressão corporal do ator. Lima, então, simula variações de queda enquanto incorpora o World Trade Center, a Dow Jones, a maçã de Newton. Mas se as palavras bastam por si, os gestos se revelam abertos. A combinação do verbo permite que um mesmo movimento ganhe outros sentidos. Deitado no chão, ele pode ser um velho em coma ou uma criança observando o céu.
Seguro de que o público acompanha o raciocínio, Lima mais uma vez subverte o jogo. Ao imitar um lobo, ele não diz mais que é o bicho, mas um homem imitando o animal. E já sem explicações, surge um número de dança com movimentos de tai chi chuan e yoga. É o prenúncio do que vem depois, quando as luzes reacendem e dois microfones ficam à disposição para o público contar algo de si, gerando tensão entre os espectadores. Após muito silêncio e algumas confissões, sem mais palavras, o ator sai de cena. É o fim do espetáculo, as perguntas sobre quem é ele e quem somos nós, porém, continuam pulsando.



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