| Morder a Língua: Jogo de tudo ou nada |

De Andreia

Para o João, para a Cecilia e para a Anna

 Jogo de tudo ou nada, vice-versa, vice-versa, verso, verso-reverso.

O que quer dizer 1, 2, início? O que é mão, braços, pernas, caminhar, saltar, sacudir, correr, respirar, girar, cair?

Quantas coisas uma coisa é? Uma, duas, muitas? Uma palavra, duas, muitas? Um, dois, muitos gestos?

Muitas palavras e muitos gestos. Uma palavra e muitos gestos. Um  gesto, muitas palavras? E vice-versa, verso-reverso?

Quantas palavras cabem num gesto? Uma, duas, muitas? Qual o verso e reverso da palavra, e do gesto? Qual o gesto da palavra, e vice-versa, verso-reverso? Qual a palavra do gesto?

Uma coisa é muitas. É muitas e muitas outras coisas espantosamente estranhas e estranhamente espantosas. É o que é, e é o que não é – outra coisa. Não é só uma, ou a outra coisa. É uma e outra coisa. É duas e é muitas coisas, todas ao mesmo tempo em uma só.

As palavras e os gestos são coisas: muitas e muitas outras coisas em uma só.

A cada palavra e a cada gesto dá-se um novo início, uma outra partida, um outro lugar, pois cada palavra e cada gesto se movimenta.

Cada novo início suspende e empurra a palavra que foi antes e o gesto novo que será depois. E depois?

Os gestos, como as palavras, se mordem, comem, degustam, possuem, mastigam, assimilam, alimentam, digerem, debatem, cospem, expurgam, atiram ao ar, se esvaziam e perdem.

Uma vez ditos e feitos, palavras e gestos não são mais palavras, não são mais gestos. Palavras, como gestos, não são mais corpo.

Não se aproximam, não se afastam, não se tocam, não se estranham nem entranham, não falam, não se articulam, não estão aquém, nem vão além, não matam, nem morrem.

São de outra ordem e de outro sistema.

Para onde foram são ar, cor, luz, silêncio.

Em Morder a Língua imagino que é assim o avançar do jogo de palavra, gesto e corpo em cena: uma, duas, muitas coisas se abrindo, dobrando e desdobrando, se revolvendo sobre si (e resolvendo a si mesmas), contraindo e expandindo, acelerando e retardando, se surpreendendo e imaginando em direção a outras e outros – outras palavras e outros movimentos, corpos, lugares, novidades.

Os gestos, como as palavras, abrem tempo e abrem espaços, e vice-versa, verso-reverso.

O meio tempo e o meio espaço da palavra ao gesto, e do gesto à palavra, é um lugar de fricção, conflito, resistência.

Um lugar dos muitos lugares do percurso cruzado no plano coreográfico.

Esse tempo e esse espaço que está entre (no meio) é também pretexto para fazer falar, para fazer dançar – portanto, para fazer dialogar.

O lugar entre é, enfim, um lugar de prazer dos corpos.

Eis uma ou duas coisas essenciais (para Morder a Língua):

1- a falha como intervalo que existe no meio entre uma, duas e muitas coisas; 2- o tempo e o espaço que está aí entre o dito e o não-dito, entre o que se fala e o que se cala, entre o dito e feito, entre o que se mostra e oculta, entre cheio e vazio, entre o que se ganha e o que se perde, entre vice-versa e verso-reverso, entre o tudo e entre o nada.

Fim. Outro jogo pode começar.

 

*Andreia Dias Marques faz doutorado em Estudos Teatrais e Performativos na Universidade de Coimbra.



IT´S A JUNGLE IN HERE!, 2007.
NATUREZA MONSTRUOSA, 2011.
BRASIL SA, 2013.
ELES NÃO SABIAM DE NADA, 2004.