|Os gestos de “Morder a Língua” – entrevista com o performer João Lima|

Revista Cardamomo – Por Clarissa Macau

Gestos que atravessam palavras, línguas que se contorcem para revisitar e construir as ideias de seus interlocutores. Pulsar palavras com troncos, braços e pernas. O brasileiro João Lima, a argentina Cecilia Colacrai e a espanhola Anna Rubirola são performers que se juntaram para discutir a comunicação entre os corpos para si e ao espaço, com, mas também para além dos idiomas de seus falantes: português ou espanhol. Ao procurar uma expressão que encontra a subjetividade das relações mediadas por ou sem falas junto à dimensão física de quem se comunica, eles nomearam o espetáculo Morder a Língua. Os textos coreográficos dos bailarinos entrelaçados não linearmente aos sons, escritos e luzes trazem a simplicidade da existência de um diálogo entre duas pessoas para discutir a complexidade das relações humanas e como elas sofrem as tensões históricas – políticas, sociais e ecológicas da contemporaneidade. “As palavras nos afetam, encantam, ao mesmo tempo que somos enfeitiçados pelo outro, pelos seus gestos. É interessante perceber como isso pode suscitar possíveis associações nos espectadores e em nós mesmos, artistas”, divaga o diretor, dramaturgo, co-idealizador do projeto, e recifense radicado em Barcelona, João Lima. A minimalista montagem da Urra! Produções, criada na Espanha em 2014, será apresentada no Recife a partir desta quinta-feira (11) até o sábado (13), às 20h e no domingo (14), às 18h, no Teatro Marco Camarotti, Sesc Santo Amaro. Os ingressos custam R$20, a inteira, e R$10, a meia. A capital pernambucana é a quinta cidade brasileira a receber a peça, que, incentivada pelo prêmio Klaus Vianna, passou por Palmas, São Paulo, Teresina e Cuiabá e segue para Rosário, na Argentina.

“Faz-se urgente levar em consideração a forma como a gente se relaciona com o outro. Durante esse espetáculo o corpo é sujeito, objeto, linguagem, enunciado, intérprete, figura e fundo”, diz João Lima, dono de uma trajetória de peças que indagam os temas da identidade humana e do poder de se colocar no lugar dos indivíduos, como Os Ilusionistas ou O outro do outro. O coreógrafo não gosta de definir seus rótulos. Diz-se ator por formação, mas acima de tudo artista. Escolheu a dança contemporânea pela possibilidade de transitar com seu corpo, justamente, entre as mais variadas linguagens artísticas. João também é professor. Afeito a hibridização das artes cria relações com profissionais como o cineasta pernambucano Marcelo Pedroso. Ele foi o responsável pela preparação de elenco e coreografias dos seus filmes, Em Trânsito (2012) e, junto à Valéria Vicente, também trabalhou os atores de Brasil S/A (2014). A Revista Cardamomo conversou por telefone com João, que contou sobre o processo artístico e investigativo de Morder a Língua. Para ele, “A dança é exigente, desafiadora e indaga sobre o mundo através do que a gente é mais íntimo: o nosso corpo diante do espaço e do outro”. Confira:

REVISTA CARDAMOMO – “Morder a língua!”. Esse trabalho se propõe a investigar as relações entre a expressão e a comunicação, o físico e o mental, os gestos e a palavra. Por que esse nome? E da onde surgiu a ideia do espetáculo?

JOÃO LIMA – O trabalho fala dessas potências linguísticas do corpo como produtor de signos e de linguagem e como ele se dá em relação ao outro ou aos outros, quando se fala em comunidade. O título tem a ver com o desejo pela expressão ambígua e muito concreta, que remeta a uma ação concreta. Ao mesmo tempo é uma tentativa de tratar de questões não ditas. Queríamos morder ou canibalizar a própria linguagem. Cecília e Ana trabalham há um tempo comigo em alguns projetos. A minha pesquisa pessoal vem trabalhando, nos espetáculos, com a questões da linguagem, alteridade e possíveis relações ao outro. Em Morder a Língua queria tratar de frente sobre a questão da linguagem, investigar as diferentes dimensões de um diálogo. A linguagem corporal e verbal pode transformar um ao outro, o espaço e a história. A linguagem é ao mesmo tempo aquilo que somos e o que podemos ser.

CARDA – Levando em conta que todo trabalho em dança contemporânea é uma investigação, o que vocês absorveram desse trabalho para a vida e para o balé e, consequentemente, o que querem passar, comunicar ao público? Por que discutir a comunicação entre os corpos?

JOÃO – Faz-se urgente levar em consideração a forma como a gente se relaciona com o outro, com o tempo e o espaço. É preciso levar em conta a própria experiências de vida que é constantemente transformada. Ela não é fixa. Através desse trabalho existe o desejo de ressignificar a noção de experiência. Estamos num momento histórico de muita intensidade e saturados de informação. A questão que me vem dessa saturação é a nossa capacidade de nos reinventarmos, da descoberta do poder de redimensionar a sensibilidade da cognição e da história. Quando eu falo de história é uma história comum que atravessa épocas e diferentes povos, que revela tensões entre poderes, políticas econômicas várias. A contada pelos vitoriosos. Como artistas temos que olhar para os detalhes que não são ditos, que não são nomeados, não têm nome. A tarefa é esvaziar os nomes que existem e reinventa-los. Não existe uma língua comum no mundo, mas algumas línguas são colocas em risco. Algumas, inclusive, são consideradas línguas mortas. No espetáculo, através de palavras do cotidiano [como] os performers desdobram situações, lançando imagens, verbos, esticando a relação do próprio ato de significar.

CARDA – Você costuma sempre, em suas criações, “desenvolver uma pesquisa formal de novas dramaturgias, interrogando noções como identidade, alteridade e temporalidade através da linguagem coreográfica”. Falando sobre a relação de uma dramaturgia com um trabalho físico, gostaria que você me contasse um pouco sobre o método de investigação pensado, por você e pelas bailarinas Anna Rubirola e Cecilia Colacrai, para o desenvolvimento da ideia e conceito da obra.

JOÃO – Conheço Anna Rubirola e Cecilia Colacrai há alguns e de outros projetos. O processo foi longo, faz parte de uma pesquisa contínua desde 2014. Quase um ano com algumas interrupções. Ele passou por diferentes etapas. A primeira foi a exploração, experimentação de improvisações, gestos e linguagens trabalhando camadas de um diálogo possível. A partir dessas experimentações fomos formando o interesse da dramaturgia. O que temos é uma dramaturgia nômade que vai se transformando ao longo da peça. Então, nesse período de um ano a gente foi reduzindo as ideias e dando forma, sempre trabalhando com a potencialidade da linguística do corpo. Foi um desafio levar o corpo a certos lugares diferentes de presença. Durante esse espetáculo o corpo é sujeito, objeto, linguagem , enunciado, intérprete, figura e fundo. Camadas se transformam ao longo da performance que nos deixa em alerta constante e que nos permite níveis de consciência diferentes.

CARDA – A sonoplastia é algo muito relevante nesse espetáculo (como em outros de seus trabalhos, mas nesse escutamos muitas palavras, algumas “ordens”, sugestões para o corpo). Conta-me um pouco sobre a relação dos sons e do movimento em ‘Morder a Língua”.

JOÃO – Toda a peça é cruzada por diferentes textos. Tem o texto coreográfico, o escrito por palavras, o texto da cena, o do som, o da luz. Cada texto tem a sua partitura independente que se cruza, todo o tempo, com os outros. A gente buscou trabalhar entre as palavras e sons. Eles trabalham em função de complementaridade, oposição ou independência. Estávamos interessados em trabalhar com poucos elementos e entender como esses poucos elementos poderiam alcançar uma complexidade. Como não havia e nem há muitos objetos em cena, as possibilidades imediatas se tornavam reduzidas, mas a experiência se mostrou ampla através do que poderíamos fazer com os corpos, gestos e palavras ao nosso dispor. Desde o início era muito interessante, pra gente, trabalhar com a polissemia, os diferentes significados, trabalhar em cima do mal entendido, do que não se explica, o desentender.

CARDA – O Morder a Língua foi influenciado por quais ideias?

JOÃO – Pelo o que a gente vê nas ruas, o ser humano, as horas no computador, leituras variadas da filosofia, da política – no sentindo em que falamos de todas as tensões na vida cotidiana, e, mesmo, marcas políticas que não interferem explicitamente elas estão lá, não tem como não participarem de um processo artístico. Morder a Língua tem um interesse que se situa entre o estético e o político revelando tensões humanas. A partir das linguagens dos gestos e palavras a gente escreve a história. Através do verbo, gestos e ações a gente manifesta, amaldiçoa, promete e age. Deixamos entrar para o espetáculo notícias, fatos históricos recentes. Da dança, em si, tivemos diálogo com as ideias de Marcela Levi , com quem já convivi, embora a gente faça uma proposta bem diferente da dela, mas muito do trabalho dela com linguagem está aqui. Também há a influência de nomes como o cineasta Marcelo Pedroso, da literatura e de filósofos como Jacques Rancière e uma frase que li em um de seus livros e que ajuda a nortear o espetáculo: “Je veux un mot vide que je puisse remplir” [A declaração que traduzida para o português significa “Eu quero uma palavras vazia que eu possa preenhcer” foi lida por Rancière numa videoarte da engajada artista francesa, Sylvie Blocher].

CARDA – Você é performer e bailarino. Qual a relação entre essas duas artes na tua obra – como elas se confundem e como se complementam?

JOÃO – Eu me considero ator. É minha formação inicial. Eu sempre fui um ator interessado pelo trabalho corporal. A dança contemporânea entra na minha vida como uma caixa de ferramenta. Amplia a capacidade de leitura. Nela eu posso trabalhar com a fala ou sem a fala, com a utilização do corpo mais abstrata ou cotidiana. Eu não me considero bailarino no sentido tradicional da palavra. Eu estou interessado em transitar. Eu me importo pouco com nomes. Se sou do teatro físico ou dança, se eu sou performer ou bailarino. Eu sou artista de maneira geral. Eu sei que as pessoas, às vezes, esperam definições. Se eu tentar responder a essas definições, eu considero que eu faço teatro contemporâneo com ideias, limites borrados, uma peça que pode ser sem fala, ou que só tenha fala e por aí vai.

CARDA – Morder a Língua é um trabalho de 2014, mas que só agora em 2016 está circulando pelo Brasil. Como está sendo a recepção e qual a importância desse espetáculo passar pelo Brasil, para você?

JOÃO – Sou recifense, brasileiro. Embora eu more fora há um tempo eu tenho um trabalho intenso no Brasil. Já atuei como coreógrafo no Recife e em outros lugares no país. Atuei como professor também. Eu nunca perdi o vínculo e nunca desejei estar fora em sentido amplo. A atualidade brasileira é minha situação. Trazer o Morder a Língua é uma alegria e é descobrir o trabalho que a gente fez em outro contexto ou outros contextos. Embora a peça tenha uma linguagem que possa permitir uma adesão direta, é também um espetáculo que corresponde a alguns códigos, que em alguns dos casos geram uma espécie de tensão, surpresa por parte de alguns espectadores menos acostumados. Recife é a quinta parada do espetáculo no Brasil. Em alguns lugares a peça gerou uma certa perplexidade, em alguns lugares gerou uma espécie de distanciamento crítico. Em outros lugares aconteceu uma adesão. As pessoas ficaram excitadas. Uma espectadora disse que chegou a ter muitos sonhos eróticos depois que viu a peça. Ela trata das potências linguísticas, ela está em prova constantemente, e é lida de diferentes formas. Ela é capaz de fazer rir e criar uma certa repulsa. Interessa-me que o trabalho não seja facilmente nomeável.

CARDA – Você conhece a realidade tanto dos países da Europa, quanto do Brasil em relação à dança. Como você enxerga a familiaridade entre o público e a dança entre esses países e o sua terra natal? E como você enxerga o que vem sendo produzido no Brasil para o mundo?

JOÃO – O público brasileiro e europeu é muito vasto. É verdade que em determinados contextos o trabalho que a gente faz pode parecer muito complexo. Ás vezes as pessoas fazem leituras inesperadas. Um espectador brasileiro disse que o nosso trabalho é muito futurista . Embora, no que fazemos, não exista nenhuma tecnologia, mas, sim, a energia primitiva do corpo. Eu noto que, no Brasil, o momento atual tem a necessidade do se escutar e ressignificar a história. Eu considero que a gente vive um momento muito perigoso. A cultura se vê em risco e isso eu vejo em várias instâncias que tratam diretamente de cultura. Nas maiores instâncias e, atualmente, interinas, passando pelos cidadãos, pedestres eu vejo um olhar para a cultura de descrédito. Um olhar que não corresponde à importância que a cultura tem na constituição de uma cidade. É triste pra mim observar, ter que bater de frente. Mas manifestar é também uma das potencialidades da linguagem. É preciso reivindicar nossos direitos e lutar por uma cultura que seja mais ampla.

CARDA – A dança/performance está muito distante do público, no Brasil?

JOÃO – Existem muitos artistas interessantes no Brasil e na arte contemporânea que fazem, em seus trabalhos, uma extrema resignificação da realidade e criação de mundo. Eu não concordo com a ideia ligada à performance e à dança como linguagem difícil ou simplesmente hermética. A dança é muito variada e permite diferentes leituras. Ela não encara o espectador como leitor passivo. É uma linguagem exigente, desafiadora, que indaga através do que a gente é mais íntimo: o corpo diante do espaço e do outro. Marcela Levi, Michele Moura, de Curitiba, o Marcelo Evelin, de Teresina, são alguns dos artistas nacionais que são de extrema pertinência e de uma linguagem urgente que fala de hoje e faz a gente sacudir. Aqui, no Recife, existe o grupo Lugar Comum e a Flavia Pinheiro. Isso são somente algumas das pessoas que estão trabalhando nessa constante reinvenção do teatro e da experiência comum.

CARDA – Hoje, já existem muitos pesquisadores que afirmam que a Dança Contemporânea não é uma técnica, mas sim uma forma de se pensar a dança. Se um dia a dança se pautava por uma dramaturgia linear, depois se tornou mais movimento e hoje é uma hibridização de ideias de todas as épocas na pós-modernidade – Queria te perguntar, como é que você pensa a dança? O que é a dança na contemporaneidade, para você?

JOÃO – A dança é entre outras coisas uma questão de posicionamento. Um posicionamento diante do mundo do outro, em relação a si mesmo. É redescoberta… Possibilidade de nadar contra a maré. Uma possibilidade de fazer mexer afetos, pensamentos e redimensionar a sensibilidade. É redescobrir as dimensões da experiência… Divertir-se e se espantar. É vasto.

Link original da entrevista: http://www.revistacardamomo.com/os-gestos-de-morder-a-lingua-entrevista-com-o-performer-joao-lima/



O OUTRO DO OUTRO, 2010.
ESTIMADA VENTAFOCS, 2008.
EM TRÂNSITO, 2013.
AMOR, PLÁSTICO E BARULHO, 2013.